segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Grécia - Dia #22 em Setembro de 2015

Acordar de manha e ir apanhar o metro a Panepistimio para ir para a Acropole. A estacao de metro e ao lado da Biblioteca Nacional e da Universidade de Atenas. Edificios lindos. Pintados. Nos muitas vezes temos a ideia errada de que os templos gregos eram todos em marmore nu, ou as estatuas tambem nao eram pintadas. Nada mais errado. De facto eram pintados de cores vivas.

Disseram-me para visitar a Acropole ou de manha cedo, ou ao fim da tarde por causa do calor. Felizmente nao tive esse problema, pois trovejou barbaramente o dia todo.

Assim que cheguei e entrei no recinto que compreende a Acropole, o Teatro de Dioniso e o Odeon de Herodes Atico, tive que voltar atras para ir comprar um guarda-chuva ao quiosque mais proximo.
Por acaso ja quando visitei Pompeia ha uns anos, tambem o fiz debaixo de chuva...
"It's a sign! It's a sign!"

Ao pe da Stoa de Eumenes estava um grupo de pessoas debaixo de telha interessadissimas na epigrafia grega. Ou isso ou estavam-se a abrigar da chuva e fingiam que liam grego classico para disfarcar.
Menos de uma hora depois ja o guarda-chuva de 5 paus se tinha quilhado e me tinha arrancado uma febra do dedo. Deixei o meu sangue no Partenon!
"It's a sign! It's a sign!"

Por acaso nao acredito muito nessas ondas da energia e do misticismo. Ha uma amiga minha que vibra completamente com essas coisas, mas a verdade e que mesmo a pessoa mais indiferente a historia e a arqueologia, e impossivel nao se sentir magnetizada naquele local.

A esta altura do campeonato estou farto de ver templos gregos, mas aquele local e especial. Gostei mais do que esperava.
E depois ha aquela parte divertida, da estrutura parecer direita e nao o ser.
Ao contrario do que possa parecer, os tambores que formam as colunas, nao sao exactamente do mesmo diametro desde a base ate ao capitel. De facto, no terco inferior, e para conferir uma maior sustentabilidade, as colunas sao ligeiramente mais grossas do que nas outras duas partes superiores.
Mas a grande questao e que o templo tem ligeiras curvaturas para corrigir certas ilusoes de optica que os nossos olhos sofrem, quando olham para uma serie de linhas direitas. A solucao foi entortar ligeiramente essas linhas de modo a que os nossos olhos as leiam no seu todo como direitas, criando uma imagem de harmonia e de perfeicao no nosso cerebro.

O Parténon de Atenas

Depois do Partenon, dei um salto a colina do Aeropago, antes de seguir para a Agora Grega (tambem ha a Romana, que vai ficar para amanha). Segui o Caminho Panatenaico e dei a minha direita com a Stoa de Atalos, reconstruida nos anos 50 por um dos Rockefeller.

Do primeiro piso, avista-se em frente o Templo de Hefesto, o templo mais bem preservado que e conhecido.

Templo de Hefesto, vistoa  partir da Stoa de Átalos, na Ágora Ateniense


Vi ainda no recinto da agora, a Prisao do Estado, onde Socrates esteve preso e onde foi envenenado com a cicuta.


Depois disso, segui para o Templo de Zeus Olimpio, o maior de toda a antiguidade classica. Ainda passei pelo arco honorifico a Adriano, que o concluiu (o templo conheceu varios hiatos na sua construcao por falta de verbas). Quando vi este arco honorifico, fiquei a compreender o mamarracho no meio da Praca de Espanha, em Lisboa, completamente descontextualizado, o Arco de S. Bento.

A correr ainda fui ao Estadio Panatenaico, iniciado no seculo VI a.C. e reconstruido varias vezes. Tambem foi depois palco dos primeiros Jogos Olimpicos da era moderna, em 1896.


No Estádio Panatenaico
Fui jantar e ainda parei na Praca Syntagma para me despedir. Desejo o melhor para este pais e esta boa gente. Nao tenho vontade nenhuma de me ir embora amanha, ja para o meio do frio.

Por isso ainda vou vadiar para Madrid uns dias. E agora acho que vou beber um copo. Amanha ha ainda para ver a Agora Romana e a Biblioteca de Adriano.

Boa Noite



Grécia - Dia #21 em Setembro de 2015

Cheguei entao de madrugada a Atenas e tratei de encontrar um hostel. Nada de especial, era perto da estacao de metro. Tentei dormir melhor umas horas, mas tal revelou-se impossivel. Eu vou abrir aqui um parentesis:

Os gregos nao sao muito diferentes dos portugueses. 


Espera é melhor esclarecer também,  o que é óbvio: é claro que as pessoas são todas diferentes, mas constatar valores comportamentais transversais nas sociedades, é perceber que os seres humanos são também produto de onde crescem, e que normais sociais lhes são inculcados. Portanto, sim, não "podemos generalizar", como manda dizer o Manual do Politicamente Correcto, mas parece-me isto tão básico, que às vezes esqueço-me de explicar tudinho muito bem, e depois sou acusado de fazer generalizações.

Dizia entao que os gregos nao sao muito diferentes dos portugueses. Sao mais silenciosos do que os espanhois e absolutamente menos histrionicos do que os italianos. Sao parecidos com os turcos, mas nao lhes digam isto que eles chateiam-se.


Ora bem, nao e por isto ser uma sociedade meridional, e nao ser a perfeicao em termos funcionais que e um zoo. Certas pessoas que vivem debaixo da chuva e sem falarem umas com as outras, emocionalmente reprimidas durante 350 dias ao ano, acham que na Grecia, tal como em Portugal e tudo a brava. Entao batem portas, mijam onde lhes apetece, e acham que definitivamente estao na selva e e tudo uma festa. Nao e por ai meninos.
Ora dormir? Esquece.
schlainen steinen rutzenfutzen ja! PAM!!! bate com a porta. chturten ales vint! PAM!!! bate com a merda da porta.
- Can you please do less noise? It's 9 o'clock in the morning and there are people trying to sleep.
- uhh sorry...

(o rapaz nao tinha pensado nisso, coitado... ele tinha acordado certamente com os berros do Tarzan de liana em liana)


orro popo vedez metre ci-celui gadrre rrototo PAM! porta. me vre u o ohohohoh! urro po-to PAM! benditas portas. E Benditos Filhos da Grande Puta.



Impossivel.
Que fazer? Comer e seguir para o Museu Nacional de Arqueologia.

No caminho vi um anuncio de visitas guiadas. Aquelas tours parvas dos autocarros descapotaveis ideais para tirar fotografias e nao perceber nada.

Diz que faziam visitas em portugues e em brasileiro. E em ingles e americano. E acho que tambem faziam em castelhano e em chileno. E em cubano igualmente.

Máscara de Agamémnon

Chegas ao Museu, e olhas logo para a "Mascara de Agamemnon", com 1800 anos. Desta vez a original que o Schliemann resolveu achar que era do Agamemnon sim senhor. Para tal ate lhe mandou umas marteladas. Nao se sabe de quem e. E de um rei de certeza, agora se e do Agamemnon....

"Frigideira" cicládica





Gostei das "frigideiras" neoliticas cicladicas, todas decoradas na base. Eu gostei de muitas coisas, das estatuetas tambem de arte cicladica, das armas micenicas, da ceramica votiva e domestica cicladica e minoica, mas o que mais gostei foi de perceber ao vivo e a cores a evolucao da escultura grega desde o rigido Periodo Arcaico, passando pelo Periodo Severo, ate ao Classico e ao Helenistico. A progressiva libertacao dos movimentos.
A primeira grande ruptura da-se com a derrota dos Persas e com o enterramento deliberado da estatuaria arruinada da Acropole de Atenas. Ai inicia-se uma nova fase, de procura de novas formas. E claro que isto nao foi de um dia para o outro. Na Historia, apesar dos maus professores darem essa impressao, ou dos programas serem demasiado longos para se fazerem compreender os processos em condicoes, as coisas nunca sao assim.

Tambem havia uma escultura do Periodo Helenistico, de 100 a.C. simplesmente hilariante:
O Pan a atirar-se a Afrodite, com o Eros no meio e ela a ameaca-lo com um chinelo.


Afrodite, Eros e Pan


Ainda vi tambem a coleccao egipcia e a exposicao temporaria que celebra os 150 anos do museu.
Cheguei morto e fui dormir cedo, visto que o Museu de Arte Cicladica estava fechado.




domingo, 13 de agosto de 2017

Portugal Arde.

O fogo reatou agora nos Adões. Eu vivo ao lado. A minha aldeia é pegada aos Adões. Ontem foi o Inferno aqui nos Adões e em Trouxemil, que é aqui a 2 Km.

Estive ontem nos Adões a ajudar a desocupar um armazém cheio de diluentes e de outras matérias inflamáveis. Deu para tirar os diluentes e a maquinaria. Depois em Trouxemil, estive a ajudar a assegurar um corredor desmatado, entre o verde e as casas. 

Vi ser abatido um pinheiro manso, na plena força da idade. Foi abatido por uma retro-escavadora e teve que ser assim, porque se ele pegasse, chegava às casas.

Nunca pensei que ver uma árvore a ser abatida, me fizesse tanta impressão. Imponentemente caída, desmandada ao chão impotentemente. Morreu, e ali ficou para ser consumida pelas chamas.
Tal como escutar os gritos das pessoas, em aflição, pelas suas casas, o seu gado, os seus negócios deitados por terra.

Toda uma vida penhorada ali em poucas horas.

O fogo mete medo. Está ali adiante ardendo, mas dá-lhe o bafo do vento e em menos de um minuto está em cima de ti. Ainda fomos lá à frente sem água, a tentar pará-lo com ramos, mas tivemos que vir embora, ou arriscavamo-nos a ficar lá.

Esta triste realidade só se percebe/sente de perto.

E a Festa dos Adões ontem não houve. Essa festa que acolhe os emigrantes, e que é objecto de confraternização entre amigos e familiares. Não há Festa nenhuma, aqui.

Não concordo com a teoria popular do "era apanhá-los e metê-los lá dentro." Mas percebo melhor agora porque o sentem e o dizem.

É uma revolta muito grande. Ver a mata ser consumida, perceber também os bichos queimados, perceber a vida toda a extinguir-se em menos de nada.
E não podes fazer nada, ou pouco podes fazer.

As fotos foram tiradas pela Patrícia, mais de longe, a quem consegui convencer a ir embora mais a menina, enquanto eu tinha ido para lá ver o que podia fazer. E toda a ajuda é bem vinda. Porque os bombeiros, apesar de competentes, são poucos, face à quantidade de fogos que lavram por todo o território nacional.

Obrigado pela Vossa Atenção.



Grécia - Dia #20 em Setembro de 2015


Vim-me embora com muito pouca vontade esta manha. Ja estou em Kissamos e vou apanhar o barco. De manha estarei em Atenas, para a recta final.

Depois de Kissamos ...andei entao 5 Km. e apanhei o barco para Atenas. No caminho encontrei no chao um cartaz do KKE que vou levar para casa.

Antecítara

O barco saia as 17 e chegava a Atenas, ao Porto do Pireu, as 6:30 da manha, com direito a escala em Antecitara, uma ilha com apenas 40 habitantes que vivem da pesca e da pastoricia, e em Citera, ja as 22:30.



"A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses..."

A bordo
...nem tanto assim. So me calharam duas nonagenarias holandesas que me perguntaram se eu era italiano (e eles a darem-lhe com o italiano), e que passaram o tempo a falar comigo, a mandarem-me piadas intencionais e olhares marotos, acerca das minhas supostas namoradas. E a perguntarem se estava na classe que tinha camarotes. Eu nem quis acreditar naquilo. Então, respondi educadamente e fingi que não estava a perceber nada.

Selfies na casa de casa de banho, com retretes ao fundo escancaradas, ficam sempre muito bem.

 Por acaso momentos antes tinha ido a casa de banho, e tinha assumido que estava com um "aspecto fenomenal" apos 3 semanas de pura e salutar ciganice. Pelos vistos estava enganado, visto que claramente ainda sou um Adonis para velhotas de 90 anos.

Cheguei entao de madrugada a Atenas e tratei de encontrar um hostel. Nada de especial, era perto da estacao de metro. Tentei dormir melhor umas horas, mas tal revelou-se impossivel.... (continua praticamente de directa)...

Grécia - Dia #19 em Setembro de 2015

Cabras bebendo de fonte de água-doce na praia
A praia era incrivel. Nao havia quase ninguem. Tinha tambem a caracteristica de ter um lencol de agua doce por baixo desta. Onde quer que se escavasse, encontrava-se agua doce. Entao havia nascentes, um pouco por todo o lado. De manha um rebanho de cabras passa em frente a minha tenda para ir beber delas.

Havia um cafezinho onde fui beber um ouzo, por uma amiga. Bebi outro por mim, porque era falta de educacao nao a acompanhar. Este cafe todo em madeira, está  montado sobre uma estrutura por cima da água Também tem um ponto onde se apanham os táxis marítimos onde os suiços e alemães os apanham para irem para o hotel caro, onde estão só uns com os outros.

Conheci uma velha suiça de alguns 90 anos, que meteu conversa comigo. Às tantas e algo despropositadamente, lança o barro...

" - Pois, pois, mas a Grécia é muito cara não é...?" - olhando para mim significativamente.
  - ... o que a senhora me está a querer perguntar é, Como é que um português supostamente pobre pode vir passear para a Grécia, não é?"

Pronto, envergonhou-se.

" - Ah não! Mas não! Mas não!
 - Claro que é, mas pode-me perguntar isso directamente. Contudo não lhe garanto que me apeteça responder-lhe."


O mar nos meus pés

Mas tambem conheci gente boa. Os meus vizinhos, o Dimitris, um curioso da historia e da filosofia com alguns 70 anos, e o Fanis, um arquitecto no desemprego mais ou menos da minha idade, revelaram-se uma excelente companhia.

Entre as partidas de domino, e outras coisas naturais que nos deixavam horas a olhar para as estrelas a conversar, o Dimitris revelou-me que acha que Platao foi pouco mais do que um jornalista que subverteu o que outros filosofos originalmente defenderam. E isto porque Platao era um oligarca, inimigo da democracia. Eu desconfio que ele era anarco-primitivista, pois falava muito na democracia directa e era muito ligado a natureza. Antes era do PASOK. Nao obstante foi uma excelente companhia, e aqui tenho a certeza de ter feito bons amigos.

A "minha praia" em Hóra Sfakion
O Fanis explicou-me que o grande problema da Grecia enquanto estado, foi que depois da queda de Bizancio, sempre foram um pais sobre ocupacao. Pelos turcos, depois com a Guerra da Independencia, foi ajudada pelos franceses e pelos britanicos que queriam uma parte do Imperio Otomano, e por isso apoiaram a Revolucao Grega. Mais tarde foram ocupados pelos nazis e quando se livraram deles, tiveram que aturar os britanicos outra vez. Isso explica muita coisa que observei, em relacao a forma de estar destes povos, e a uma certa falta de crédito nas instituicoes.

Grécia - Dia #18 em Setembro de 2015


 Fui primeiro imprimir o bilhete de barco para Domingo, ainda em Iraklion, e so depois e que me meti a caminho, la para as 11.

Loggia dos Venezianos (Iraklion)
Mudei de autocarro em Vrissas, um qualquer vilarejo de faroeste cretense, e so depois e que cheguei a Hora Sfakion. Hora Sfakion e um porto minusculo na costa sudoeste de Creta. Ficou para a historia em 1941, quando serviu de palco de retirada das tropas britanicas, gregas, australianas e neo-zelandesas, derrotadas na Batalha de Creta em 1941.

Assim que la cheguei fiquei a saber que nao ha barcos para Gavdos ate terca-feira. E impossivel ir ate Gavdos. E tambem que ha que ir com tempo, pois muitas vezes fica-se retido dias a fio, por causa das condicoes do mar. Entao o senhor alemao de avancada idade com quem falava, sugeriu-me que andasse 5 Km. para oeste. Havia la uma praia, onde se podia fazer campismo selvagem e naturismo tambem. Falou ele com o motorista e la me deram uma boleia ate la.

Igreja de São Tito (Iraklion)

Nao propriamente ate la, pois ainda havia que descer por uns trilhos, sobre o mar, cerca de 30 minutos. Esse caminho era o mesmo do Monte Olimpo. Era o E4, que na verdade vai desde Tarifa (Espanha) ate aqui a Creta.

Os Trilhos Europeus de Grande Percurso, sao um conjunto de caminhos para fazer caminhadas que cobrem toda a Europa. Sao mantidos por uma tal, "Fédération Européenne de la Randonnée Pédestre".




A praia fica virada ao Mar da Libia. A Libia esta ja ali em frente a pouco mais de 200 Km. Tanto como de Coimbra a Lisboa. Um pouco mais a sudeste esta o Egipto.
Vamos entao até à praia e acampar. 


Esta fotografia não tem photoshop. O mar é deste azul-turquesa.

Grécia - Dia #17 em Setembro de 2015


Iraklion.

Dia de ir visitar o Palacio de Knossos e o Museu Arqueologico de Iraklion.
Perguntei a um motorista com o autocarro engarrafado no transito, onde podia apanhar aquele autocarro. Ele perguntou-me se estava sozinho, eu disse que sim e ele disse-me para entrar. Um casal de boches de meia idade, franziu o nariz. Coitados, se calhar pensam que estao numa colonia, ou que ganharam a guerra. Ha gente que nao percebe muito bem qual o seu lugar quando visita a terra dos outros.

Palácio de Knossos (Creta)
 O "Palacio do Rei Minos" fica a uns escassos 5Km. da cidade. Ha muito que o queria ver. Gostei. E um sitio magico, mas vim de la tambem desiludido:

Arthur Ewans, que fez as primeiras intervencoes arqueologicas em Creta , e descobriu tambem as tais placas do Linear A e do Linear B, aparentemente era um rapaz criativo. De modo que "reconstruiu" boa parte do palacio segundo as suas teorias. O conjunto resulta algo plastico e falso. Desde o uso de cimento (os minoicos desconheciam-no), a livre criacao de murais a partir de fragmentos incompletos valeu tudo.

No meio do palacio, a rebaldaria continua com os turistas: vale tudo. Ate meterem as patas em cima dos muros para fazerem selfies.
Um a minha frente com os chispes em cima de um muro e uma das guardas a apitar-lhe para ele descer dali e o gajo a fazer-se de parvo, a fingir que nao a estava a ouvir. Irritou-me. Se calhar la na terra dele nao parte um prato. Aqui como julgamos que chegámos a selva, fazemos o que nos apetece. Nao vale a pena respeitar as pessoas, ou o seu patrimonio cultural. Tenho dinheiro, faco o que me apetece.

Mandei-lhe alto berro a dois metros dele;

"- HEY! SHE IS ASKING YOU TO STEP OUT OF THE STRUCTURE!"

Encolheu-se e voltou a Terra. Pronto, ainda bem: assim ja percebeu.

Palácio de Knossos (Creta)



Mas se vale a pena fazer a viagem a Creta para ver o palacio? Claro que vale. E ainda muito mais pelo Museu Arqueologico de Iraklion, que explica o desenvolvimento e genese da civilizacao minoica e da civilizacao em Creta, desde o Neolitico, ate ao periodo Romano Imperial. Aqui sim, tive uma grande surpresa. Este museu, que e considerado o segundo melhor museu arqueologico do pais, logo atras do Museu Nacional de Arqueologia em Atenas, apresenta uma vastissima coleccao de pecas num estado de conservacao incrivel.
Eu nunca tinha visto nada como isto. E claro que muitas foram reconstruidas, mas ainda assim encontrar as pecas todas para fazer um trabalho magnifico destes, eu nunca tinha visto.

Museu Arqueológico de Iraklion
E agora e hora de ir dormir, porque amanha as 5:30 vou para Hora Sfakion. Quero apanhar um barco para uma ilha minuscula chamada Gavdos. E o ponto do continente europeu mais a Sul, ja a 200 Km. da costa da Libia. Nao e um sitio turistico. Ha 3 aldeias e pessoal todo nu a acampar na praia. E o que vou fazer durante dois dias, antes de ir para Kissamos para apanhar o barco para Atenas.

Grécia - Dia #16 em Setembro de 2015


O dia comecou muito cedo. Tao cedo que vi nascer o sol da varanda e fui ter com ele ao mar.

A Torre Branca em Tessalónica
Arranquei para Litohoro no autocarro das 8 da manha e depois foi seguir para Tessalonica. Nao tive muito tempo, mas vi o possivel. A Torre Branca claro, com uma exposicao muito completa acerca da historia urbanistica da cidade, e do seu caldeirao de culturas; crista, muculmana e judaica. E uma terra ja de fronteira sente-se.
O unico senao e que a Torre Branca nao fala em si do que foi: a prisao para os jovens Janisarios indisciplinados.
Os Janisarios eram jovens cristaos recrutados pelo Imperio Otomano para combaterem a seu favor, como soldados de infantaria. Portanto, carne para canhao, porque eram de sangue infiel. Convertidos ao Islao, mas ainda assim muculmanos de segunda categoria. Portanto, carne para canhao para combaterem pelo Sultao.
E uma estrutura de origens bizantinas, reestruturada pelos turcos.




Depois disso ainda consegui ter tempo para ir ver o Arco de Galerio; um arco honorifico cheio de referencias das guerras contra os persas, que marcava a entrada do palacio imperial, e a "Rotonda".
A "Rotonda" nao e menos do que uma emulacao do Panteao Romano.

Mosaico bizantino na Rotonda
Passou pela idade bizantina, acusou a islamizacao com o Imperio Otomano, como se ve pelos restos do minarete la erguido - tipologicamente semelhante aos que encontramos em Istambul; ja ali ao lado - e ainda quis ir ver os Banhos do Bey. O Bey e um governador provincial otomano.
Mas como ja vi antes do que tratava, e queria estar a vontade para chegar ao aeroporto atempadamente, dei meia volta atras.

Em Tessalonica tambem vi um grande activismo. Vi Okupas, vi propaganda do Partido Comunista Grego, dos Anarquistas, e ate dos outros gajos assim de esquerda que arrotam umas postas de pescada e ficam por ali, habitualmente. De qualquer forma e positivo que a malta se mobilize.

Ainda perguntei onde havia um telefone publico a um gajo do Potami em campanha. Ele explicou-me que nao sabia, porque desde ha uns anos na Grecia as pessoas usavam telefones celulares. Eu disse que o compreendia, pois no meu pais tambem andamos a vender o pais a estrangeiros e a achar que isso e que e o progresso e que e muito bom para o comum.
O Putami e um partido "de centro. Sao do centro. Liberais e europeistas. E e claro que a conversa descambou muito facilmente.

Tambem vi uns carecas que olhavam para mim com cara de bois almiscarados com a sua viva inteligencia estampada no rosto.

Deve ser uma cidade porreira. E pena que nao a conheci melhor.


Chegado ao aeroporto, e na hora do embarque, dizem-me,
"Ha um problema com o seu bilhete. Espere aqui ao lado."
Sem mais.
Nao gostei.
La me disseram para embarcar, e quando perguntei qual e que tinha sido o problema, disseram que nao era nada. A questao e que quando cheguei ao aviao, tinham-me retirado o meu lugar a janela que eu tinha reservado.
E eu queria mesmo aquele lugar. Porque percebia que iamos ver o Monte Olimpo que eu tinha escalado. E agora queria ve-lo la de cima.
Entao perguntei a hospedeira. Ela nao me sabia responder. Entao sentei-me onde me destinaram. Mas chateei; diabo! Entao se escolhi aquele lugar e se me o retiram sem mais, nao ha uma justificacao? Isso nao pode ser assim.
Sou um ugly bastard, mas nao me quilhes.
La veio ela, muito sensual, explicar que ainda nao tinha uma resposta. Mas eu encarnei o meu personagem O Homem de Gelo, e nao dei mais confianca.

" Bebe tu es a Bambi, mas eu sou o Rei Leao" pa.

Alem disso nem gosto de mulheres excessivamente magras. E estava mesmo disposto a apresentar reclamacao por escrito no fim da viagem.

Felizmente, que se comportaram a altura e la veio a Bambi, e disse-me que me tinham encontrado um lugar a janela conforme eu tinha pedido. Segui-a e ela explicou:
"Nao, nao e comigo - ela estava de servico a popa da aeronave - o senhor vai para a frente, para a classe executiva."
Ah bom, agora estamos a falar.


Nao foi nada demais, so os assentos e que sao mais confortaveis. Infelizmente nos voos domesticos nao servem gin. Senao tinha sido mesmo a Keith Richards.

Monte Olimpo visto do avião
Mas cheguei a Creta e escrevo agora de Iraklion. No Hostel ainda conheci um policia irlandes que meteu ferias e se meteu a caminho na sua mota, para ir atraves de Creta para a Ilha de Rodes, para ai tentar passar para a Turquia, onde vai tentar chegar a fronteira da Siria. Quer ver o que se passa com os olhos dele, porque diz que na Irlanda e no UK toda a informacao que lhe chega, chega-lhe muito deturpada e de forma parcialista. Entao ele quer ir ver por ele.

Grécia - Dia #15 em Setembro de 2015


Ainda na noite do dia 14, e chegado da montanha, cheguei a um hostel em Grifsa. Era mesmo a beira da praia. Assim que cheguei ao meu quarto conheci o Joel, um finlandes. Comecamos a falar e as tantas interrompo-o para lhe dizer,

" Sorry man, but I really have to have a shower, because I stink."

E o Joel a boa maneira nordica, franco e sem merdas respondeu-me,
"Yes you do. But I don't really mind."

Ora nao e isto preferivel ao "nao.. nao, ai eu ca nao noto nada..." e depois nas costas ir dizer que o gajo tresanda? Eu acho que sim.

O Joel era um fisioterapeuta que se despediu para ir viajar por tempo indeterminado. Depois quer cursar medicina, quando voltar. Gajo porreiro.
Estavamos para ali a falar e estava um alemao sozinho, e convidei-o a juntar-se a boa maneira latina. Nao era um gajo muito expansivo - os dois finlandeses que conheci conseguiam ser mais... desconfio que a Escandinavia e um acoito de loucos, no bom sentido - mas la combinamos no dia seguinte ir visitar a Antiga Dion.

A Antiga Dion e um parque arqueologico incrivel, aos pes do Monte Olimpo.
Esta e definitivamente uma boa ideia, no que concerne a promocao da arqueologia. E um parque verde, com uns patos e uns bichos la no meio do verde, mas com espolio arqueologico. Acaba por ter um discurso museologico descontraido, acessivel e francamente interessante.


Dion ja existia na epoca classica, mas adquire maior expressao quando a Dinastica Macedonica a torna o seu local de culto a Zeus. E ai vai realizar depois jogos em contraponto a Olimpo classica, e festivais e rituais.
Pois la vi o templo a Isis, um culto egipcio muito popularizado em Roma, a partir do momento em que o Julio Cesar andou la a dar umas cambalhotas com a Cleopatra, mas ja antes, na Epoca Helenistica ele existia e tinha alguma expressao na Grecia.

Ruinas do "altar de Alexandre"


Vi tambem, ESTIVE NO SITIO!!!!! onde Alexandre, o Grande, sacrificou rezes a Zeus Olimpo, na vespera da sua partida para a gloriosa campanha da Asia em 334 a.C. contra o Imperio Aquemenida.
O que sobra desse altar esta aqui a esquerda decima-terceira imagem.






Nabilium 
Vi alguns "ex-votos" consagrados a protectora das parturientes no museu do sitio arqueologico, alguns objectos em ouro retirados de tumbas macedonicas (os mortos eram cremados e os seus ossos depositados em urnas incenerarias, juntos com oferendas, ou objectos respeitantes a vida, ou estatuto social do defunto; e claro que estamos a falar das elites aqui) mas o que mais me despertou nesse museu, foram os restos do "Nabilium" datados do seculo I d.C. Portanto do periodo romano imperial.
E o que diabo e um "nabilium"? É um "hydraulis" para os gregos!



E um instrumento musical de cordas. Uma especie de cravo que funcionava por principios hidraulicos. Vitruvio fala dele. Ja se tinham encontrado estelas com o mesmo representado, mas eis que aqui descobriram restos dos tubos.
Foi o primeiro instrumento do genero encontrado em toda a Grecia, e o mais antigo de todo o mundo ate hoje.




Plano do Parque Arqueológico de Díon

Depois disso, o alemao, muito amavelmente deu-me uma boleia ate Litohoro, enquanto ele seguiu para Meteora.

Entrei numa igreja ortodoxa e gostei uma vez mais.
Porque e que as igrejas do cristianismo catolico sao tao negras, tao escuras, tao cheias de sofrimento e de imagens cheias de sangue e martirio? Mas que merda de ideia e essa?

Depois comprei um bilhete de aviao para o dia seguinte para ir de Tessalonica a Iraklion, em Creta, pelo mesmo preco que pagaria por autocarros e barco. A diferenca e que e so uma hora e um quarto de viagem.
Quando cheguei ao hostel, ainda dei um bom banho nas aguas do Golfo de Tessalonica. E se eu tinha saudades deste mar quente!

Depois jantou-se e estivemos todos a conversa. Um portugues, um finlandes, um alemao (outro), um norte-americano, uma russa e um cota de alguns 60 anos, grego que faz percursos guiados pela montanha. Falou-se muito. De politica principalmente.
Contou-me ele tambem que "Zorba, o Grego" foi inspirado num homem aqui de Litohoro.
O bom destes hostels e o mau. Conheces gente soberba, e depois despedes-te deles. Mas isso e bom. Ficas com uma boa energia que tens vontade de a passar a outras pessoas.

Grécia - Dia #14 em Setembro de 2015

Ontem quando cheguei, ponderei ficar mais uma noite e um dia inteiro, para me recuperar bem. Estava todo partido.
Nao foi preciso. Bem comido, e bem dormido, acordei as 7 (e fui dos ultimos!) com vontade de subir ate la acima. Uma subida durissima, com uma inclinacao absurda. Aqui ja nao havia arvores, caminhava sobre calhaus; isto porque acima dos 2000 metros nao cresce grande vegetacao. Quando se olha para uma montanha e se ve que ela esta pelada a partir de um certo ponto, e porque essa cota ja e superior a 2000 metros. 

Quase no alto...

Mas cheguei! E magnifico. So tinha subido a uma montanha assim grande ha uns anos na Suica. E incrivel. Ha um grande silencio, e todos os sons parecem amplificados, mesmo os mais pequenos.
2900 metros. Com as nuvens abaixo de mim. Devia estar na sala de estar do Zeus, visto que o gajo foi porreiro em convidar-me la para casa e nem permitiu que eu partisse o pescoco dali abaixo.

No alto. 2917 metros.


Sai la de cima eram 11 e cheguei ao abrigo as 13. Comi, recuperei e toca a andar para baixo. Em Prionia as 4 decido ir a boleia. Sem dificuldade. Um carro com uns simpaticos freaks gregos vieram-me trazer a Litohoro.

O português no alto do Monte Olimpo.

Agora vou dormir a praia. Depois logo se ve.

Grécia - Dia #13 em Setembro de 2015


Acordas de manha e olhas para o Monte Olimpo da varanda. Sentes aquele apelo magnetico. E hora de comer um farto pequeno almoco e de te meteres ao caminho.


O Monte Olimpo, visto de Litohoro



Subindo...
O trilho comeca em Litohoro, logo pelas gargantas dos Pes de Zeus, a torrente que corre pelo meio. Sete vezes a subir, e outras tantas a descer, para te fazer compreender que isto nao vai ser facil.
De cada vez que via a minha frente escadas a descer, ate tinha vontade de chorar, porque percebia que a seguir subia o dobro pelo menos, ate santa coisa.
Se queres ascender a Morada dos Deuses, o teu preco tens que pagar. Foram 18 Km. feitos em tres horas e meia a andar bem.
Passa-se por uma capela dedicada a S. Dionisio, com uma nascente de agua. Vem?! Depois sou eu que sou mau! Entao Dionisio nao e o deus do vinho???
Agora ca agua! Isto e o que o cristianismo fez! Aposto que ha 2500 anos a nascente do Dionisio no Monte Olimpo dava vinho!
Chegado a Prionia, ja a 1100 metros, foi tempo de repousar um pouco e de comer uma sopa de cabra (deliciosa!). Retemperadas as forcas e que comecou a brincadeira a serio: outras tres horas sempre a subir!
Mas curiosamente sempre de sorriso nos labios. Ok, pelo menos ate aos ultimos 15 minutos antes de chegar ao abrigo, a 2100 metros.
Quando avistas finalmente o abrigo, parece-te o mais belo palacio que alguma vez viste.
Duche de agua quente nao havia, porque a agua e racionada. Secam-se as roupas suadas a lareira.
Ai passei a noite. As luzes apagaram-se as 22 e toda a gente dorme.


Subindo...

Grécia - Dia #12 em Setembro de 2015



Mártires do Império Otomano (Meteora)
Hoje nao ha assim muito a contar. Levantei-me e fui ver os mosteiros que me faltavam. So falhei o de S. Nicolau, mas disseram-me que nao e grave, pois e um dos mais pequenos e nem por isso dos mais interessantes. Visitei entao o Grande Meteoro, e o de Varlaam. Nao sei traduzir "Varlaam"; a verdade e que ja vou conseguindo ler alguma coisa em grego, mas depois logo falo disso).

No Grande Meteoro fiz uma fotografia de uma representacao iconografica que achei estranhissima e ouvi logo o guarda com o "No pictures!" com cara de poucos amigos. Antes estava um casal senior com alta camera a fotografar o que lhes apetecia, mas a mim resolveu-me chatear. Devolvi-lhe a cara de poucos amigos e ficamos por ali. Nem me veio chatear para apagar aquilo, ficamos assim. O chato foi que havia pouca luz e a fotografia ficou tremida.


Depois de almocar vim-me embora para Litohoro, desta feita de comboio. Os comboios sao confortaveis e os assentos sao simpaticos, porque estao sempre a sorrir para nos. 


Um assento bem disposto
Tive que esperar por uma ligacao durante uma hora e meia em Paleofarsalos, uma terra no meio do nada, e ainda vi o PAOK a malhar 3 a zero nuns tonis quaisquer. Tambem havia Alfa.

Cheguei a Litohoro, ou melhor a estacao e estou num descampado no meio de nenhures, ja noite. Tive sorte de passar um carro com um casal que me ofereceu boleia. Vieram deixar-me a Litohoro de proposito, visto que nem lhes ficava no caminho. Trabalham no museu do sitio arqueologico de Dion.
Dion era onde a dinastia macedonica (de Filipe II e Alexandre o Grande) adoravam os seus deuses. No entanto tem uma ocupacao mais antiga, visto que ja encontraram la materiais do Periodo Arcaico. Talvez la va depois do Monte Olimpo.
O Monte Olimpo.... o Monte Olimpo vai ser dureza. Sao 12 horas daqui ate la. Amanha faco 8 e durmo num refugio de montanha, e na manha seguinte faco o resto da subida. Nao haverao noticias nos proximos dois dias, portanto, visto que vou estar a caminhar e isolado la para cima.
E agora estou a esperar que a camera carregue num net cafe cheio de adolescentes aos berros, a jogar aqueles jogos dos tiros uns com os outros.
 
Meteora
 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Grécia - Dia # 11 em Setembro de 2015

Se no ocidente medieval, os mosteiros tiveram o papel especial de preservar o conhecimento e a cultura, a partir do colapso do Imperio Romano do Ocidente, no Imperio Romano do Oriente, ou Bizancio, nao ha essa ruptura, pelo que os monges tinham como principal e quase exclusiva funcao rezar.
Para fugir a mundanidade e ao pecado, pensa-se que se da a primeira ocupacao, e construcao de um dos primeiros mosteiros nos rochedos de Meteora, no seculo XIV. A historia do eremitismo na regiao e porem mais antiga e remonta ao seculo XI.
Meteora significa "suspenso no ar". Sao umas torres de pedra com uma altura media de 400 metros que formam uma autentica floresta de granito em plena Tessalia.

Ate 1920, so era possivel subir aos mosteiros por umas escadas precarias, ou por uma cesta de metal suspensa por uma corda. Esta cesta tambem servia para o abastecimento dos mosteiros.
Diz a lenda que as cordas so se trocavam, "quando Deus decidisse partir uma".
Decidi fazer Meteora a pe. Foi um bocado duro, e ainda me faltam ver tres mosteiros. Vai ser o que farei de manha antes de me ir embora.
Hoje vi Santa Barbara, Santo Estevao, os dois femininos, e o da Santissima Trindade.

Mosteiro de Santa Bárbara, em Meteora

Nao e permitido tirar fotografias no interior das igrejas dos mosteiros, o que e uma pena. As paredes sao todas pintadas com os santos, em tons de negros e dourados. E lindo.
Nao deixam nem sem flashes, para as pessoas comprarem postais e eles fazerem dinheiro em nome de Deus. Mandei-os dar uma curva e no da Santissima Trindade, tirei uma a socapa, so para dar uma ideia.


Interior de capela no Mosteiro da Santíssima Trindade (Meteora)

Em Santo Estevao estava a entrar e veio uma funcionaria apagar velas que ainda iam a meio e comecou a manda-las para o caixote onde reciclam cera para voltarem a fazer velas e as venderem outra vez. Afinal estava para chegar outro autocarro cheio de polacos beatos. Ha que fazer render a espiritualidade.
Ainda assim, fiquei atonito e perguntei-lhe o que estava a fazer,

"- Nada... nada... estou so a guardar algumas velas...
- Mas nao e suposto deixarem-se arder as velas ate ao fim?
- Sim.. sim... mas elas ja estavam no fim.... alguma era sua?
- Nao."



Mosteiro de São Estevão, em Meteora

Dai a alguns minutos tentei fotografar o tecto da igreja disfarcadamente e veio logo a tipa das velas com cara de poucos amigos pedir para apagar a foto. Ainda assim eu nao fizesse algum postal e lhes estragasse o negocio.
Mais, quando fui comprar uma coisa a loja do mosteiro, a freira nao me deu recibo da venda. Quando lho pedi disse-me que nao costumavam dar, que nao tinham. Portanto pelo que percebi, a Igreja Grega nao deve pagar impostos nenhuns ao Estado. Devem estar isentos. O pais na maior miseria e eles fazem dinheiro como esterco e nao descontam um centimo para um Estado que se encontra neste momento completamente falido. E os pedintes nas ruas de Atenas. E eles no mosteiro a falar de Cristo, da Virgem e sem partilharem as receitas monstruosas que geram. E assim.
E a religiao institucionalizada e isto meus amigos, e minhas amigas.
Nao ha muito mais a dizer.
No regresso decidi fazer um dos trilhos pelo meio do bosque ate ca abaixo, Kalambaka, onde ainda visitei uma igreja bizantina do seculo IX, mas com uma ocupacao anterior do seculo V. Portanto uma das primeiras da cristandade.
Ainda fiquei a perceber que o simbolo da Igreja Ortodoxa Grega, uma aguia de duas cabecas, remonta ao Baixo Imperio Romano e a divisao deste em dois, o do Ocidente, com a capital em Roma, e o do Oriente com a capital em Constantinopla. Um imperio com duas cabecas. Hoje significa a igreja crista, uma parte catolica e a outra ortodoxa. Um corpo comum com duas cabecas.
Ja a chegar aqui um polaco meteu conversa comigo para lhe indicar um sitio para ficar. Andava ha 11 semanas na estrada. Esta a ir a pe de Roma
a Jerusalem...

Grécia - Dia # 10 em Setembro de 2015

Acordei as 7:30 para apanhar o autocarro das 10 e planear a viagem. Alguem exigiu a minha atencao e depois disso fui comecar o dia a campeao a dar umas boas bracadas para expulsar o mal do corpo ainda resultado da cowboyada, da noite americana. 

Um amigo madrugador
Para chegar a Kastraki, a aldeia na base dos rochedos de Meteora, tive que trocar quatro vezes de autocarro (4!!!). Isto para percorrer menos de 200 Km. Realmente o servico privado e o Reino de Deus na Terra. Nao ha duvidas.
Em Lamia ainda pensei ir ao desfiladeiro das Termopilas, que e ali a uns escassos18 Km, ver o local da batalha persico-espartana, mas depois so tinha autocarro de volta 3 horas depois e arriscava-me a perder as ligacoes para conseguir chegar a Kastraki.




Isto porque normalmente os funcionarios so sabem da sua propria companhia.
Nao ha qualquer troca de informacao com as outras companhias. Estando as companhias de transportes todas privatizadas e fragmentadas, e entao o caos absoluto para os utentes.


Uma furgoneta castiça, abandonada em Kastraki

 As viagens valem pelas paisagens incriveis.

Cheguei e no quarto que arranjei, a casa de banho era neste modelo que ja vi na Turquia: tem um ralo no meio do compartimento, e instalam numa das paredes um chuveiro. Quando queres tomar banho, toda a casa de banho se transforma num poliban. O que e porreiro, desde que facam a devida manutencao dos canos. E foi isso que nao aconteceu no quarto 16 do Zozas. O resultado foi bonito, havia agua ate fora do quarto. Mudaram-me de quarto, secaram-me a roupa e insultaram-se uns aos outros em grego. Deviam estar a dizer:
" - A culpa e tua!
- Minha?? Entao ja te tinha dito que esta merda precisava de ser desentupida! A culpa e tua!
- LHA LHA LHA LHA LHA LHA AUF! AUF! AUF! AUF!....."
Deixei-os entretidos e fui jantar. Encontrei uma tasca onde ainda bebi um ouzo e algumas metaxas, enquanto via a Grecia a jogar contra a Holanda no Europeu de basquetebol. Aqui vem bastante basquetebol.
Era uma casa familiar. Votavam no Syriza. Falamos durante muito tempo, depois do jogo.

Azeitonas, souvlaki e metaxa!

Grécia - Dia # 9 em Setembro de 2015

Apanhei o autocarro das 7:30 para Delfos.
O mais impressionante do Santuario, para alem do espolio todo que lhe pertence e esta no museu, o Tesouro de Atenas e incrivel porque ainda la esta inteiro. Os tesouros eram pequenas estruturas que as cidades consagravam ao Deus Apolo. Se entravam em guerra e venciam batalhas, agradeciam a Apolo, e colocavam parte do espolio de guerra nestas pequenas construcoes. O stadion, apesar de mais pequeno do que o de Olimpia, esta melhor conservado. Isto tambem, porque o Imperador Adriano, ja no periodo romano, fez questao de mandar construir bancadas em marmore no local.
Por falar em Imperador Adriano:
Antinoo
Quando estava no museu, estava uma guia em frente de uma estatua de Antinoo a explicar quem tinha sido, falava do ideal de beleza da juventude e da paixao do Imperador Adriano. E estava a explicar isto para um grupo de norte-americanos. Como estava a espera que ela se desviasse para fazer uma fotografia, fui escutando, e ficando.
E falava ela da estaua em si... reparem que a face direita nao apresenta aquele rigido equilibrio da escultura classica... reparem que tem um olhar melancolico, como uma perfeicao nunca alcancada pela vontade humana...
e Antinoo deificado... foi morto por ciumes, por Adriano gostar tanto dele e o invejarem...
(traduzido):
                                                   "- Que idade tinha ele quando morreu?
                                                    - Cerca de 20 anos. Talvez nem tanto.
                                                    - E que idade tinha quando o imperador o adoptou?
                                                    - Era adolescente.
                                                    - That's sad!"

Rebentei a rir. Eu juro que tentei, nao fiz por mal, mas saiu. Lembrei-me logo dos ianques porreiros da noite passada. Coitados, tenho mesmo pena deles.
Ja ca faltava o puritanismo parolo americano! Era mesmo o coroar do bolo que faltava aqui! E acima de tudo o mais interessante na história toda.

Estrutura circular ao centro: Templo de Atena Pronaia
De resto tirei aquela fotografia dos livros de historia do Templo de Atena Pronaia. Fiz questao. Tantos anos a olhar para tantos livros e sempre o mesmo plano, queria faze-lo eu tambem. E um bocado estupido, porque o Oraculo de Delfos era consagrado a Apolo, mas nos livros, quando se refere o mesmo, aparece sempre o tholos da entrada do santuario, que se localizava numa parte consagrado a Atena Pronaia. Pronaia, porque era a interpretacao feminina de uma divindade pre-classica que era previamente idolatrada ja no local. Tambem o santuario tem ocupacao micenica onde se adorava Ge, o Deus da Terra.
Os gregos acreditavam que o Oraculo de Delfos era o Centro do Universo. Se olharmos em volta e facil de perceber: estamos rodeados por uma muralha de montanhas, e uma vez mais sente-se uma certa pequenez. Estamos a 700 metros acima da superficie do mar e rodeados de montanhas ainda mais altas.

Plano de Delfos 


Depois olhei para o Monte Parnasso e pensei em subi-lo. Mas o cume do Monte Parnasso ainda e a 30 Km daqui. So podia subir aqui a um "montito de merda" de 2300 metros. Acho que nao vou perder um dia aqui nisso, e encontrei um casal alemao que me deu uma ideia muito melhor:
Amanha sigo para Kastraki para visitar Meteora e depois vou subir a morada dos deuses! O Monte Olimpo. Sao dois dias de caminho ate chegar aos 2918 metros. E a montanha mais alta da Grecia continental e pode-se chegar praticamente ao cimo sem material de escalada, porque existem trilhos. Vou faze-lo!
De resto, estou com duvidas em relacao a Bulgaria. Sinto-me demasiado imerso no Mundo Classico. Acho que nao me apetece mudar de frequencia.

Grécia - Dia #8 em Setembro de 2015

" Place me on Sunium's marbled steep,
Where nothing, save the waves and I,
May hear our mutual murmurs sweep..."

Lord Byron
......
A festa com os norte-americanos acabou por prolongar-se, e a ida a Delfos para a manha seguinte foi adiada. E verdade que estou na Grecia, mas nao e por isso, que isto tem que ser uma maratona. Afinal sao ferias e nao a Volta a Grecia em Autocarro.
Mas foi produtivo. Ainda recriamos uma pieta e tudo, como se pode ver na foto.


A Pietà: uma francesa minúscula e um norte-americano um bocadinho maior do que ela.

De modo que nao me apeteceu levantar-me as 6:30 para seguir viagem. Fiquei em Atenas a descansar, fui lavar roupa e informar-me dos autocarros para ir de Salonica ate Sofia. Nao e caro, se tivermos em conta que viajar de autocarro na Grecia nao e economico. Por 20 euros pode-se fazer a viagem, porem.
Onde ir no resto do tempo? O Museu de Arte Cicladica estava fechado e o Museu Nacional de Arqueologia, so o quero ver no fim. Isto porque grande parte do espolio encontrado nos sitios que estou a visitar, esta la. Vai ficar entao para o fim.
O que fazer entao? Que hipoteses? Bem os amigos da America falaram que foram ao Templo de Poseidon, no Cabo Sounion, para ver o por do sol e gostaram. E uma boa hipotese. O Cabo Sounion, no extremo sul da Peninsula Atica era um ponto estrategico de controlo do Mar de Creta que se extende diante do mesmo. Tinha uma guarnicao permanente. Para alem do por do sol, podem-se ver algumas das ilhas do Arquipelago das Ciclades.
Templo de Poseídon


 Fui entao ao Cabo Sounion a duas horas de Atenas, e pude ver la a assinatura do Byron numa das colunas do templo. Era tao louco por este sitio, como o era por Sintra. No Sul e que se esta bem, nao e meu caro? La em cima esta sempre a chover... eu percebo.
O por do sol nao o vi bem, porque estava nublado, nao foi ainda assim tao mau como se estivesse na Inglaterra do Byron, mas valeu a pena. Delfos ficou para o dia seguinte.



A chegada a Praca Omonia, vi muitos refugiados sirios a espera de apanhar um autocarro que os levasse para norte. A proposito: a Grecia nao esta nada sob invasao islamita. Depois quando voltar logo falo melhor disso. E mesmo engracada a quantidade de disparates que este facebook consegue promover como verdades absolutas. Nao e nada disso. Mas fica para depois. Abracos

Refugiados na Praça Omonia









quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Grécia - Dia #7 em Setembro de 2015

Calhou o dia de ir visitar o Santuario de Epidauro. Pelo caminho ainda vi uma ponte micenica, a partir da estrada. Os palacios micenicos estavam ligados por estradas, o que leva a crer na existencia de boas relacoes entre os diferentes reinos. A ponte era feita com grandes blocos de pedra e com aquela abertura em colmeia, tao caracteristica deste tipo de arquitectura.
Podemos ver exemplos dessa tipologia no Tesouro de Atreu, ou na galeria da cidadela de Tyrins.
Acerca do Teatro de Epidauro... nao tenho palavras. Nem pelo estranhamente perfeito estado de conservacao, nem pela mesma harmonia nas formas que encontro na arquitectura grega. Nao e colossal como a romana, gosto mais, pessoalmente. Nem podia fazer sentido num pais tao montanhoso. O equilibrio e sempre uma referencia.
Teatro de Epidauro
Muita gente testava a acustica do local, e as tantas um americano, ja com idade para ter juizo, comeca a ler a Biblia no meio da Orchestra, com a sua pronuncia do Texas, ou do Alabama, ou da puta que o pariu. Ainda passei por ele e atirei-lhe:
"- This is a pagan site. Go to a church and read that. Give me a break."
E o gajo virou-se, todo inflamado, ele mais o bone com a bandeira americana,
AND THE LORD SAID bla bla bla......!!!
Com os olhos todos raiados. Parecia um daqueles atrasados mentais que rebentam com edificios... achei melhor nao tornar a responder. Um doidinho da religiao e um doidinho da religiao. Seja ela qual for.
Visitei o resto do sitio, e ainda tive direito a uma visita particular ao odeon romano, que esta fechado ao publico. Aqui se dizes que es de arqueologia, ou de historia, as pessoas olham-te de outra maneira. Deve ser o pais do mundo, onde quem opta por estudar estas materias, menos escuta aquela conversa imbecil do:
:Ah arqueologia! Que giro. Sabes que eu quando era miuda gostava imenso e tambem queria, mas depois para que e que isso me servia..?"
Corte estratigráfico
E um gajo tem que se dominar para nao dizer;
Servia para nao ficares estupida, minha bimba.

Voltei a Napflio para apanhar as malas e seguir para Atenas, e caiu uma bela trovoada de gotas grossas com mais de 30 graus. Soube bem. No caminho de regresso, voltei a passar ao Golfo de Salamina, onde o Temistocles e os gregos derrotaram os Persas (os que nao gostam de ler, podem ir ver o 300. Esta cheio de disparates, mas e melhor do que nada).

Quando cheguei ao Hostel em Atenas, fui beber uma cerveja para o terraco e conheci uns norte-americanos muito baris (da California, do Michigan e do
Estádio de Epidauro
Oregon).

A experiencia foi deveras interessante, ja que se falou de musica, de alguns autores norte-americanos e eles coitados, quando lhes contei a historia do teatro, bem disseram que bem que tentam, mas que os imbecis eram em maior numero, e eles ficavam sempre mal vistos.
Bem sei que os norte-americanos nao sao todos assim, mas realmente na maior parte das vezes, e o pior que nos chega a Europa.
E agora e tempo de dormir e de seguir para Delfos.