terça-feira, 22 de agosto de 2017

Caminho de Santiago - Epílogo

Caminho Central Português
Braga - Santiago de Compostela

9 dias, 9 etapas.
Total: 224 Km.

Se é duro? É.
Se é possível? É.



 Os primeiros quatro dias são os piores, depois o corpo vai-se habituando. O principal é não começar muito rápido e ir disfrutando do Caminho. Não é nenhuma maratona; pelo menos eu vejo as coisas assim. Acho que vale mais fazer menos etapas, mas fazer com calma, do que querer fazer "1500 Km em 3 dias.
Agradeço ao meu amigo António J. Silva que amavelmente se ofereceu em dar-me casa em Guimarães, se bem que depois os planos fossem alterados. Agradeço à Rosa pelo precioso conselho da Nívea nos pés, à Patrícia que me ajudou a preparar toda a bagagem, e muito principalmente ao Daniel Ribeiro, cuja pronta disponibilidade e partilha de informação e de toda a espécie de dicas, tornaram o meu Caminho muito mais fácil.

Abraços
João Macías

Caminho de Santiago - Dia #9 em Novembro de 2016

Caminho Central Português - Dia 9
Padrón - Santiago de Compostela (23 Km.)


Novamente muito frio e nevoeiro pela manhã. Pelo Caminho, sai-se de Padrón pela Porta do Bordel (???) e passa-se no cemitério de Iria Flávia, onde está sepultado Camilo José Cela.
Pelo Caminho, encontram-se várias casas de meninas, o que torna isto tudo numa misturada fantástica.








Hoje fiz o Caminho em 5 horas. Acelerei bastante o passo e paguei o preço a chegar a Santiago, que parecia que nunca mais aparecia. Quando apareceu, parecia que nunca mais chegava à Praça do Obradoiro, onde está a catedral.



Ao entrar em Santiago de Compostela, parei para almoçar numa taberna. Lentilhas, espetadas de porco, vinho tinto bebido da malga, uma tarte de orujo, pão e café. 10€ tudo.



Lá consegui chegar à catedral e fui buscar o certificado; a a Compostelana. Hoje fui dormir numa pensão. Pela primeira vez vou estar sozinho e sem ouvir roncos. Bem Mereço.













Caminho de Santiago - Dia #8 em Novembro de 2016

Caminho Central Português - Dia 8
Caldas de Reis - Padrón (17 Km.)

O dia amanheceu gelado e chuvoso, com temperaturas na ordem dos 4 graus. Meti-me a caminho e passei o dia todo praticamente sozinho.


A propósito: Temos que parar de dizer mal de nós constantemente; proporcionalmente, o Caminho Português do lado de Portugal, tem partes mais bonitas e mais duradouras. Nao vês tanta estrada, tanto comboio e tanta fábrica. Tens mais silêncio.



Fiz amigos pelo caminho, e fui com calma. Ao contrário do que previa hoje nao custou quase nada, em termos de comparaçao. Acho que ao fim de uma semana, o corpo é que começa realmente a ganhar habituação.










 Cheguei a Padrón por volta das 17:00 e fui ver as estátuas do "meu ancestral";

Basicamente, as minha origens andaluzas por sua vez remetem a origens galegas em meados do século XIX. Macías, nao é um nome assim tao vulgar no Sul de Espanha.

Uma vez quando vivia em Santiago de Compostela, uma amiga minha dali brincou comigo, e sugeriu que pelo meu carácter eu devia ser descendente do trovador galego do século XIV. A verdade é que ele vai morrer na Andaluzia, na ponta da lança de um marido traido. Também é engraçado que tenha o nome do meu avô paterno. Ainda mais estranho é ter eu o meu nome invulgar em Portugal, que nunca vejo escrito; em nenhuma loja, em nenhum café, em nenhum nome de terra, em lado nenhum. Aqui vejo-o escrito em praças e sinais de trânsito. Vejo-o por todo o lado.

Quando cheguei à Praza de Macías, encontrei o meu amigo coreano que me indicou o albergue de peregrinos. Gesticulando, lá lhe pedi para me tirar uma foto, e ele disse que sim.

Nao percebeu e foi  ele posar para debaixo da estátua!

Também nao me desfiz e tirei-lhe a foto, em seguida tirou-me ele uma a mim e toda a gente ficou feliz.


























Por fim fui jantar, mas nem em Padrón encontro os Pimentos de Padrón, quanto mais no Pingo Doce. Já nao havia e tive que me regalar com um polvo à galega e um vinho tinto muito bom.

Oh que chatice.

Amanhã é a última jornada. Boa Noite.













 

Caminho de Santiago - Dia #7 em Novembro de 2016

Caminho Central Português - Dia 7
Pontevedra - Caldas de Reis (23 Km.)

O dia de hoje custou menos. É verdade que mais custosos sao os primeiros dias, depois o corpo vai-se habituando. No entanto há certas indicaçoes uteis a quem pense fazer o Caminho, que eu fui descobrindo às minhas custas.
- Como evitar bolhas? Para além de untar os pés de vaselina ou de Nívea (a pele absorve rapidamente), fazer jornadas no máximo de 30 Km. calma e pausadamente. Quem vem em modo de "Fitness Pro Turbo Impact 3000" acaba por se dar mal :)
Se apanhares chuva, muda de meias quando sentires os pés encharcados.
- A mochila deve estar o mais bem adossada ao corpo possível. Aquelas fivelas à frente servem para alguma coisa. Em jornadas grandes, a diferença nota-se e muito.

- Usa calças justas de caminhada ou umas leggings debaixo dos calçoes. Evita a acumulaçao de sangue que te faz as pernas pesarem como chumbo, e mantem-te os musculos quentes.
- Vai pausando, mas nao demasiado, porque quando o corpo está dorido, e arrefece, depois quando recomeças vais notar mais as dores.

Hoje acordei no albergue e comecei a jogar rugby com o saco cama enrolado, com a Anne e a Kaye, duas inglesas porreiras, com quem estive à conversa ontem. A Kaye levou uma bolada no nariz, cairam-lhe os óculos e perdeu.


Saí de Pontevedra pelas 08:00, passei pela antiga ponte romana da Via XIX, onde encontraram o marco mileário de Adriano (está lá uma réplica), e atravessei a ponte sobre o Lérez, no ponto onde este se junta à Ria de Pontevedra.


Ponte sobre o Lérez em Pontevedra


Fiz um troço de bosque até chegar a meio caminho. Aí bebi um café e entra o Ricardo por ali dentro.
Seguimos, para ir até aos Moinhos das Cascatas do Rio Barosa.

Antes apanhámos uma carga de água valente e tivémos que nos abrigar debaixo de uns camioes dos carrosséis que ali estavam.

 As pessoas que lá trabalhavam, diziam para estarmos à vontade e tratavam-nos bem. Já uma vez no fim de uma escavaçao no Redondo, meti-me à boleia para Évora e quem ma deu, foi um casal de velhos ciganos.

Quem anda na Estrada, gosta e percebe quem gosta de andar na Estrada.

Chegámos lá às cascatas e ele depois seguiu para Padrón e eu fiz o ultimo troço sozinho até Caldas de Reis. Caldas de Reis é uma vila termal. Ainda me indicaram um antigo lavadouro público com água a 38 graus, onde podes banhar os pés sem pagar nada. Fica no meio de uma rua.






Agora, vou comer e descansar bem. Acho que as duas próximas jornadas nao sao muito fáceis. Sao menos planas. A de hoje foi um passeiozinho.




Em Caldas de Reis



Moinhos de Barosa


sábado, 19 de agosto de 2017

Caminho de Santiago - Dia #6 em Novembro de 2015

Caminho Central Português - Dia 6
O Porriño - Pontevedra (33 Km.)


Ora bem descansado, vou acordar o Ricardo para irmos fazer esta longa jornada xuntos.

O amigo Ricardo

Quem é o Ricardo? Ah pois: o Ricardo é um freak ainda mais Rambo do que eu, que viaja com o cao dele, o Oliver. Dorme em casas abandonadas muitas vezes, e em Portugal vive numa carrinha e tem trabalhos sazonais. É um tipo muito porreiro, já nos tinhamos cruzado em Valença, e depois n'O Porriño.

 Fomos beber uma cerveja e estivémos à conversa. Decidimos entao fazer a dura jornada de amanha em companhia.



Em companhia é outra coisa, e também queria tentar desse modo: passa-se bem, porque vais distraido a conversar. Apercebes-te menos das dores e das distâncias. Mas é menos instrospectivo, claro. Amanha volto a estar sozinho.




No albergue em Pontevedra reencontrei o coreano, com quem já me venho cruzando deste Ponte de Lima. É simpático, mas só fala coreano e falamos por gestos um com o outro.

Também passei por um grande e orgulhoso galo, no meio do seu harém. Tinha pinta, o bicho.

"Soce, tás a olhar para as minhas damas?"

Escrevo de Pontevedra, agora, depois de passar pela Ria de Vigo. Mais de metade do Caminho, está feito. Agora vou jantar e dormir bem.


Ria de Vigo

Redondela


Caminho de Santiago - Dia #5 em Novembro de 2016

Caminho Central Português - Dia 5
Valença - O Porriño (24 Km.)

"Fai un sol de caralllo"!



O dia começou com muita chuva. Mas descansei bem, e as dores desapareceram na medida do possível. Bom, pelo menos aquelas que nao te permitem caminhar, porque as dores físicas neste ponto estao sempre presentes.

Valença
Tomei o pequeno-almoço em Valença.
Tenho em mim esta mania de dar dinheiro ao meu país preferentemente. E bem que o amor à Pátria me lixou, desta vez.  A tomar o pequeno-almoço levaram-me mais de 13€ no total.
Uma sandes mista, um café com leite, um sumo de laranja e dois ovos com duas fatias de presunto, e a bolsa ou a vida.

Ora nao é isto bonito?

E porque nao vao ao Caminho roubar peregrinos? Vao ao Caminho, e saem detrás das moitas com um pau, como este que eu levo, e dizem logo:
" - Dá para cá todos os teus ovos com presunto! Ou levas com o pau!"
É que assim, ainda trabalhavam, e faziam lucro! A partir de uma despesa nula. E lucravam, isso é que interessa: O Lucro. Roubar nao é feio se der dinheiro e lucrarmos muito. Quem nao rouba, nao é esperto! Assim estamos.
iBién!



Ponte Internacional entre Portugal e Espanha sobre o Rio Minho
Fomos entao mais leves, em direcçao à Ponte Internacional, cruzámos o Rio Minho e entrámos na Galiza por Tui. Atravessámos a cidade e seguimos adiante.

Rio Minho (à esquerda é a Galiza, à direita é Portugal)

Catedral de Tui






Em Riba de Louro havia um café em frente a duas placas:

Camiño Original / Caminho Alternativo

Entro no café para café e água (de Cabreirôa; gaseificada, muito boa) e fico a falar com "a xente". Todos concordamos que a nova geraçao é uma miséria. Fazem o Caminho em contra-relógio, mas nao vêm nada, nao reparam em nada, nao param para falar com ninguém e acabam por nao sentir nada.

Oferecem-me um pedaço enorme de empanada galega e acabo a deixar "propina". Coisas culturais. Nao me sentia bem se nao o fizesse. Lembrei-me também de em Ponte de Lima uma moça ter falado comigo, e de ter dito que quando fez o Caminho, nunca pagou um tostao nos albergues espanhóis. Nao lhe pediam nada e ela também nao dava nada...
Achei aquilo tao feio...
Ainda por cima vestia caro, percebia-se que era de familias com dinheiro. Tao feio.

Continuando a falar com os moços do café, disseram-me haver "o Caminho Alternativo" que foi criado aqui há um par de anos. Vai pelo meio dos montes e das florestas. O original atravessa uma zona industrial. Por razoes simbólicas, de querer fazer o Caminho Original, escolho este, mesmo que seja mais feio.

Zona Industrial do Porriño
E era de facto horrível.
Caminho e vejo uma fábrica de transformaçao de reciclagem. havia um cheiro nauseabundo, e mesmo na entrada de serviços desta, a sebe que lhe estava imediatamente em frente estava amarela, ou morta. Caminhei ainda mais depressa.
 Mas caminhando mais, acabei por pensar que ainda que seja horrível para mim, aquele sítio traduzia-se em emprego, em bocas alimentadas. Traduzia-se em pais a poupar para os filhos estudarem, para um dia poderem ter uma vida melhor do que as deles. Traduzia-se em gente que nao tem que abandonar a sua casa para ir trabalhar para fora do seu país.

Fábrica de reciclagem. Reparem na sebe. E depois a sebe à direita, que não dá para os portões.

 É horrível? De repente nao ter tido a oportunidade de pensar nestas coisas e de ter tomado a opçao de ir alegremente alienado pelo verde é que me pareceu horrível. Porque do horrível nasce o belo, também. E o belo em si mesmo, e por si mesmo, só gera o vazio.
Ainda bem que nao o fiz.

Creio que às vezes, o feio dá o belo; e o belo pelo contrário, dá uma alienaçao feita de frio egoísmo. Nao me interessa morrer seco. E aceito todas as consequências da minha opçao. Só porque a Vida é tao especial, que correr em seu paralelo, é o verdadeiro pecado.
Obrigado por este Caminho.
Andei. Continuei.

Olha aquele colchao, debaixo daquele telheiro de casa abandonada. Alguém dorme ali. Aquilo é a casa de Alguém.
Daqui a duas horas, ainda que te doam os pés, estás a dormir quentinho e debaixo de telha, depois de teres comido bem.
De que te queixas tu?
Chego a Porriño e estou estoirado. Vejo um anúncio do Celta de Vigo e da Estrella Galícia. Bom casamento!

 Vou parar um bocadinho e beber uma dessas, porque nao posso mais. Tudo dói. A cada dia há uma nova dôr física, e um maior esplendor que te obriga a pensar e a relativizar tudo.
Entro.

Peço, e logo a seguir, oiço:
" - De onde vens tu?" - um português ao balcao, radicado aqui há 7 anos, entabula conversa comigo. Bom discurso. Inteligente.
- Tu que estudaste?
- Eu? Eu tenho o sexto ano.
- Mas gostas de ler...
- Já li muito.
- Nota-se.
- Sabes que devo muito à Fundaçao Gulbenkian...?
- As bibliotecas itinerantes em carrinhas Citröen, nos anos 80?
- Sim.

Jóia de moço. Nao me permitiu pagar, pagou ele a despesa. Também me disse que já nao tinha luz para chegar a Redondela. E assim fiquei em Porriño. Apresentou-me a um amigo que tinha um albergue privado, por causa daquela história de em Espanha criarem problemas nos albergues públicos, se nao tens o CC original.



Conforto, por uns meros 10€

Nao te queixes. Agradece. Tudo. Até Amanhã.