segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O Inferno na Terra para João Macias é um concerto do ex-cantor dos The Smiths.

Eu vi logo que aquilo não ía correr bem assim que cheguei ali à Ginjinha no Rossio e vi a fauna que se encaminhava para o Coliseu. Já nas Portas de Stº Antão, decidi não me deixar intimidar, e logo ali, entrei no primeiro tasco que encontrei, para comprar uma sandes de presunto. Era uma sandes enorme com as fatias de carne a saírem para fora da carcaça. Não perdi tempo e fui passear para a porta do Coliseu segurando ostensivamente a minha sandes de cadáver, mesmo nas barbas dos seguidores de São Morrissey.

Aquilo não era nada. Mal eu sabia que o meu calvário apenas começara.

Assim que entrei no Coliseu, dei de caras com uma menina da Animal (giríssima, será que ela não teria nada melhor para fazer?) a distribuir panfletos. Recusei enquanto reparava que ela estava toda tatuada. Será que ela parou para pensar que antes de se tatuarem pessoas, as tintas da tatuagens obviamente tiveram que ser experimentadas em animais? Ou isso não lhe passa pela cabeça? Ou ainda, faz como fazem todos os animalistas, que hipocritamente alienam realidades que não lhes interessam, para reconstruírem uma utopia perfeitamente irreal, à medida dos seus devaneios particulares e sem qualquer fundamento científico real?

Adiante...

Adiante estavam já umas imagens a passar no ecrán de fundo. Apareceu a Margaret Thatcher e umas mensagens de comprazimento respeitantes à sua morte. Desconfio, que pela pouca quantidade de cabelo presente na sala, estava perante a condenação menos da Thatcher que sacrificou o Estado Social britânico, e talvez mais, da Thatcher que avisou que "Crucificaría todos os skinheads da extrema-direita".

A primeira pérola da noite seguir-se-ía poucos minutos depois. No ecrán começaram a passar imagens de Corridas de Touros e a multidão pensante do culto do São Morrissey desatou a uivar e a assobiar. Eu que já me estava a passar, caguei e fui de cabeça. Bati palmas e berrei "BRAVO!" e "OLÉ!!!". Juro que era o único a fazê-lo. Num certo sentido percebi que um é mais corajoso que uma manada. Mas também nesta altura já começava a ficar por tudo. Alguém me disse "Que estás a fazer? Eu sou contra as touradas!"

"-És? Olha eu sou a favor".

Continuam as imagens e desta vez nem os forcados portugueses escaparam.

Este vosso escriba passou-se e resolveu tirar partido da multidão nacionalista ali presente. Só para ficarem um bocadinho confusos...

"- A CULPA DISTO É DA PORRA DO TRATADO DE WINDSOR! QUEM É QUE ESTE INGLÊS DE MERDA PENSA QUE É, PARA VIR PARA AQUI DAR LIÇÕES DE MORAL?!"


Começa então o concerto. Felizmente. Finalmente.

Às 21:30 britânicamente pontuais, entra o nosso herói eco-fascista em acção.
"The Queen is Dead" diz ele. Todo vestido de branco, entre o bife a gozar a reforma no Algarve e o patrão da plantação de cacau do Gana, ali está ele na sua plenitude. As pessoas tocam-no. Ele deixa-se tocar, para seguidamente limpar as mãos com repulsa. É o maior.

Isto era o que tinha à frente. Atrás tinha dois casais podres de bêbedos. Eles enormes, cheios de tatuagens com frases tipo "Pátria ou Morte" e outros símbolos igualmente engraçados. Elas bêbedas a berrarem O TEMPO TODO no meio das canções,

"MÓ-RI-CÊI! MÓ-RI-CÊI!
UUÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍ!!!!......
AI LÔV IU!
MÓ-RI-CÊI!!"

Abstrai-te João. Vê o concerto, olha para a frente,

":...Ohh eu sou algo maior do que um simples homem....e todos vós sois a merda que eu cago..."

"- MÓ-RI-CÊI! MÓ-RI-CÊI!"

Olha para o concerto, caga tu.

"...Ohhh as vacas no prado compreendem melhor do que tu que não tens cérebro...."

" - MÓ-RI-CÊI! MóóóóÓÓÓÓÓBBLLAAAAAAAAAAAAARRRRGGGGGHHHH .... ... ptiuu.. pu..."

E lá à frente o gajo a continuar em força..

"Ohhhh... Deixem os tou-ros vi-ver......"

"MÓ...HIC..gáá..." (e o chão todo vomitado)

E mais touros. E mais tourada. Fui incapaz de não pensar que este gajo teve foi uma relação que correu mal com um toureiro... ou tem fetiches com as calças... isto há aqui alguma coisa mal resolvida, para estar sempre a bater na mesma tecla.

E pronto, e vídeos dos aviários... e os porquinhos.. e as vaquinhas... e os animaizinhos coitadinhos e ele a cantar por cima,

"E porque me havería eu de ralar...? Se não sou eu... se não me dói a mim..."

Mas espera lá; este gajo acha que é igual ao porco ou à galinha, é isso?

Mas o inferno é mesmo esse; para além destes episódios, seria mais fácil se eu pudesse dizer que não gosto de Morrissey, ou dos The Smiths musicalmente. Ou mesmo liricamente (não de tudo, claro; isso é impossivel). Mas não é assim.

A verdade acerca do concerto?
Foi muito giro o concerto. Foi musicalmente irrepreensível (estou a falar a sério), mas tentava abstrair-me desta missa o tempo todo, o que foi impossível. E tentava não olhar para o público. Este dividia-se entre animalistas, neo-nazis e muita malta de óculos de massa. Nunca vi tanto caixa de óculos junto. Se em Portugal só se lê a Bola e o Correio da Manhã, queres ver que todos os gajos que lêm livros em Portugal, estavam no concerto do Morrissey? É provável, é.

Continuo a gostar bastante de Morrissey. Não garanto é que volte a repetir a experiência, por tudo o que lhe está inerente. O Morrissey? O Morrissey deve ser um gajo porreiro, mas eu preferia jantar com o Saddam Hussein, do que beber uma cerveja com ele.



P.S.: Na foto temos o Retrato do Escriba Enquanto Jovem A.M*. Quando era um animal feliz.

*Antes de Morrissey.




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