terça-feira, 15 de agosto de 2017

Caminho de Santiago - Dia #1 em Novembro de 2016

Caminho Central Português - Dia 1
Braga (Sé) - S. Pedro de Goães (30 Km.)

Sé de Braga
Sou o primeiro a sair do albergue, ainda antes das 7 da manhã.
Passo por um grupo de senhoras dos seus cinquenta anos que me perguntam:

"- Olha lá, bais dar porrada co' pau?"
 - Se não me chatearem muito, não."
Riso transversal. Bom Dia!

Deviam ser trabalhadoras de alguma fábrica, porque enquanto nos despedíamos, veio uma camioneta particular, para onde entraram todas.


S. Frutuoso de Montélios
 Dentro da cidade, o Caminho não está assinalado e por vezes as indicações não são claras. De modo que acabo por dar algumas voltas desnecessárias até chegar a S. Frutuoso de Montélios, capela pré-românica do século VII em planta de cruz grega, tipicamente de influência bizantina, e uma raridade por cá.
Eu já estudei esta estrutura há uns anos, mas não me lembrava que a mesma tinha sido posteriormente adossada a uma igreja do século XVIII. O resultado é tenebroso de feio.



Sigo caminho e estou com frio. Vejo um anúncio da Decathlon (boa! vou fazer um pequeno desvio).

Pergunto pelas direcções e distâncias numa bomba de gasolina, e diz uma moça cujo irmão lhe enchia os pneus:
" - Eu dava-te boleia. Mas não confio em ti!
- Está bem"
(Mas nesta cidade serão todos malucos?)
" - Olha eu dou-te boleia! Mas prometes-me que não me assaltas!
- Está bem, eu não te assalto. Queres o pau para a tua mão? Se eu te assaltar dás-me com o pau.
"- Ah, não é preciso!"
Lá arrancámos. Era professora e gostava de Bob Dylan.

Cheguei lá à Decathlon antes da hora de abertura, um frio do caraças e tive que me distrair com a "Peregrinação" do Fernão Mendes Pinto, livro escolhido para a viagem.

Quando voltei ao caminho original, deixando o estádio do Siza Vieira à minha esquerda, dou por um mero golpe de sorte com as indicações do Caminho. É que as pessoas não parecem saber por onde vai o mesmo, e só me sabiam indicar o caminho pela Estrada Nacional. Não senhor, o Caminho Português do Interior, só muito de vez em quando e por breves momentos passa pelas estradas nacionais. À saída de Braga, começa em Dume, e vai pelos campos, pelas aldeias e por estradas municipais. É mais longo, menos directo, mas é claro que é muito mais bonito. Não percebo o sentido de fazer não sei quantos quilómetros a pé no meio dos carros e do barulho. Não me parece uma coisa muito espiritual, mas cada um saberá de si.

Caminho perto de Dume 

Ainda antes de atravessar o Rio Cávado, e já depois de mais de uma dezena de quilómetros as costas doem-me. Trouxe demasiada tralha, e isto não vai ser fácil. Nada.


Rio Cávado

Depois de Vila de Prado mudo as meias para retardar o aparecimento de bolhas nos pés. Depois sigo e caminho. Muito.

 Na zona do Neiva, por essas 15:30 da tarde pergunto a um agricultor pela distância até Ponte de Lima. São ainda 10 Km. pela estrada, diz-me ele - o que significa que pelo caminho, é mais. Mas diz-me haver um albergue ali a 1 Km. em S. Pedro de Goães. Parece-me uma boa ideia, até porque depois de Ponte de Lima é a etapa mais dura que começa logo com a subida da Labruja.
O corpo pede-me descanso. Mas ainda estou indeciso, quando vejo uma placa que me diz que até ao albergue de Ponte de Lima, são ainda 17 Km. Nem pensar; vou ficar em S. Pedro de Goães.

 O albergue está instalado numa antiga escola primária, do Estado Novo. Chego, lavo roupa, tomo banho, cozinho e instalo-me. Estou completamente sozinho.

Albergue de peregrinos de S. Pedro de Goães





 Penso que esta, é uma boa ideia para requalificar uma escola que já não tem alunos. Mas uma escola sem alunos é sempre um lugar triste.

Boa Noite.

Algures entre Braga e Ponte de Lima









Torre de Penegate

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