Caminho Central Português - Dia 1
Braga (Sé) - S. Pedro de Goães (30 Km.)
Sou o primeiro a sair do albergue, ainda antes das 7 da manhã.
Passo por um grupo de senhoras dos seus cinquenta anos que me perguntam:
"- Olha lá, bais dar porrada co' pau?"
- Se não me chatearem muito, não."
Riso transversal. Bom Dia!
Deviam ser trabalhadoras de alguma fábrica, porque enquanto nos despedíamos, veio uma camioneta particular, para onde entraram todas.
Dentro da cidade, o Caminho não está assinalado e por vezes as
indicações não são claras. De modo que acabo por dar algumas voltas
desnecessárias até chegar a S. Frutuoso de Montélios, capela
pré-românica do século VII em planta de cruz grega, tipicamente de
influência bizantina, e uma raridade por cá.
Eu já estudei esta estrutura há uns anos, mas não me lembrava que a mesma tinha sido posteriormente adossada a uma igreja do século XVIII. O resultado é tenebroso de feio.
Sigo caminho e estou com frio. Vejo um anúncio da Decathlon (boa! vou fazer um pequeno desvio).
Pergunto pelas direcções e distâncias numa bomba de gasolina, e diz uma moça cujo irmão lhe enchia os pneus:
" - Eu dava-te boleia. Mas não confio em ti!
- Está bem"
(Mas nesta cidade serão todos malucos?)
" - Olha eu dou-te boleia! Mas prometes-me que não me assaltas!
- Está bem, eu não te assalto. Queres o pau para a tua mão? Se eu te assaltar dás-me com o pau.
"- Ah, não é preciso!"
Lá arrancámos. Era professora e gostava de Bob Dylan.
Cheguei lá à Decathlon antes da hora de abertura, um frio do caraças e tive que me distrair com a "Peregrinação" do Fernão Mendes Pinto, livro escolhido para a viagem.
Quando voltei ao caminho original, deixando o estádio do Siza Vieira à minha esquerda, dou por um mero golpe de sorte com as indicações do Caminho. É que as pessoas não parecem saber por onde vai o mesmo, e só me sabiam indicar o caminho pela Estrada Nacional. Não senhor, o Caminho Português do Interior, só muito de vez em quando e por breves momentos passa pelas estradas nacionais. À saída de Braga, começa em Dume, e vai pelos campos, pelas aldeias e por estradas municipais. É mais longo, menos directo, mas é claro que é muito mais bonito. Não percebo o sentido de fazer não sei quantos quilómetros a pé no meio dos carros e do barulho. Não me parece uma coisa muito espiritual, mas cada um saberá de si.
Ainda antes de atravessar o Rio Cávado, e já depois de mais de uma dezena de quilómetros as costas doem-me. Trouxe demasiada tralha, e isto não vai ser fácil. Nada.
Depois de Vila de Prado mudo as meias para retardar o aparecimento de bolhas nos pés. Depois sigo e caminho. Muito.
Na zona do Neiva, por essas 15:30 da tarde pergunto a um agricultor pela distância até Ponte de Lima. São ainda 10 Km. pela estrada, diz-me ele - o que significa que pelo caminho, é mais. Mas diz-me haver um albergue ali a 1 Km. em S. Pedro de Goães. Parece-me uma boa ideia, até porque depois de Ponte de Lima é a etapa mais dura que começa logo com a subida da Labruja.
O corpo pede-me descanso. Mas ainda estou indeciso, quando vejo uma placa que me diz que até ao albergue de Ponte de Lima, são ainda 17 Km. Nem pensar; vou ficar em S. Pedro de Goães.
O albergue está instalado numa antiga escola primária, do Estado Novo. Chego, lavo roupa, tomo banho, cozinho e instalo-me. Estou completamente sozinho.
Penso que esta, é uma boa ideia para requalificar uma
escola que já não tem alunos. Mas uma escola sem alunos é sempre um
lugar triste.
Boa Noite.
Braga (Sé) - S. Pedro de Goães (30 Km.)
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| Sé de Braga |
Passo por um grupo de senhoras dos seus cinquenta anos que me perguntam:
"- Olha lá, bais dar porrada co' pau?"
- Se não me chatearem muito, não."
Riso transversal. Bom Dia!
Deviam ser trabalhadoras de alguma fábrica, porque enquanto nos despedíamos, veio uma camioneta particular, para onde entraram todas.
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| S. Frutuoso de Montélios |
Eu já estudei esta estrutura há uns anos, mas não me lembrava que a mesma tinha sido posteriormente adossada a uma igreja do século XVIII. O resultado é tenebroso de feio.
Sigo caminho e estou com frio. Vejo um anúncio da Decathlon (boa! vou fazer um pequeno desvio).
Pergunto pelas direcções e distâncias numa bomba de gasolina, e diz uma moça cujo irmão lhe enchia os pneus:
" - Eu dava-te boleia. Mas não confio em ti!
- Está bem"
(Mas nesta cidade serão todos malucos?)
" - Olha eu dou-te boleia! Mas prometes-me que não me assaltas!
- Está bem, eu não te assalto. Queres o pau para a tua mão? Se eu te assaltar dás-me com o pau.
"- Ah, não é preciso!"
Lá arrancámos. Era professora e gostava de Bob Dylan.
Cheguei lá à Decathlon antes da hora de abertura, um frio do caraças e tive que me distrair com a "Peregrinação" do Fernão Mendes Pinto, livro escolhido para a viagem.
Quando voltei ao caminho original, deixando o estádio do Siza Vieira à minha esquerda, dou por um mero golpe de sorte com as indicações do Caminho. É que as pessoas não parecem saber por onde vai o mesmo, e só me sabiam indicar o caminho pela Estrada Nacional. Não senhor, o Caminho Português do Interior, só muito de vez em quando e por breves momentos passa pelas estradas nacionais. À saída de Braga, começa em Dume, e vai pelos campos, pelas aldeias e por estradas municipais. É mais longo, menos directo, mas é claro que é muito mais bonito. Não percebo o sentido de fazer não sei quantos quilómetros a pé no meio dos carros e do barulho. Não me parece uma coisa muito espiritual, mas cada um saberá de si.
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| Caminho perto de Dume |
Ainda antes de atravessar o Rio Cávado, e já depois de mais de uma dezena de quilómetros as costas doem-me. Trouxe demasiada tralha, e isto não vai ser fácil. Nada.
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| Rio Cávado |
Depois de Vila de Prado mudo as meias para retardar o aparecimento de bolhas nos pés. Depois sigo e caminho. Muito.
Na zona do Neiva, por essas 15:30 da tarde pergunto a um agricultor pela distância até Ponte de Lima. São ainda 10 Km. pela estrada, diz-me ele - o que significa que pelo caminho, é mais. Mas diz-me haver um albergue ali a 1 Km. em S. Pedro de Goães. Parece-me uma boa ideia, até porque depois de Ponte de Lima é a etapa mais dura que começa logo com a subida da Labruja.
O corpo pede-me descanso. Mas ainda estou indeciso, quando vejo uma placa que me diz que até ao albergue de Ponte de Lima, são ainda 17 Km. Nem pensar; vou ficar em S. Pedro de Goães.
O albergue está instalado numa antiga escola primária, do Estado Novo. Chego, lavo roupa, tomo banho, cozinho e instalo-me. Estou completamente sozinho.
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| Albergue de peregrinos de S. Pedro de Goães |
Boa Noite.
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| Algures entre Braga e Ponte de Lima |








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