sábado, 19 de agosto de 2017

Caminho de Santiago - Dia #5 em Novembro de 2016

Caminho Central Português - Dia 5
Valença - O Porriño (24 Km.)

"Fai un sol de caralllo"!



O dia começou com muita chuva. Mas descansei bem, e as dores desapareceram na medida do possível. Bom, pelo menos aquelas que nao te permitem caminhar, porque as dores físicas neste ponto estao sempre presentes.

Valença
Tomei o pequeno-almoço em Valença.
Tenho em mim esta mania de dar dinheiro ao meu país preferentemente. E bem que o amor à Pátria me lixou, desta vez.  A tomar o pequeno-almoço levaram-me mais de 13€ no total.
Uma sandes mista, um café com leite, um sumo de laranja e dois ovos com duas fatias de presunto, e a bolsa ou a vida.

Ora nao é isto bonito?

E porque nao vao ao Caminho roubar peregrinos? Vao ao Caminho, e saem detrás das moitas com um pau, como este que eu levo, e dizem logo:
" - Dá para cá todos os teus ovos com presunto! Ou levas com o pau!"
É que assim, ainda trabalhavam, e faziam lucro! A partir de uma despesa nula. E lucravam, isso é que interessa: O Lucro. Roubar nao é feio se der dinheiro e lucrarmos muito. Quem nao rouba, nao é esperto! Assim estamos.
iBién!



Ponte Internacional entre Portugal e Espanha sobre o Rio Minho
Fomos entao mais leves, em direcçao à Ponte Internacional, cruzámos o Rio Minho e entrámos na Galiza por Tui. Atravessámos a cidade e seguimos adiante.

Rio Minho (à esquerda é a Galiza, à direita é Portugal)

Catedral de Tui






Em Riba de Louro havia um café em frente a duas placas:

Camiño Original / Caminho Alternativo

Entro no café para café e água (de Cabreirôa; gaseificada, muito boa) e fico a falar com "a xente". Todos concordamos que a nova geraçao é uma miséria. Fazem o Caminho em contra-relógio, mas nao vêm nada, nao reparam em nada, nao param para falar com ninguém e acabam por nao sentir nada.

Oferecem-me um pedaço enorme de empanada galega e acabo a deixar "propina". Coisas culturais. Nao me sentia bem se nao o fizesse. Lembrei-me também de em Ponte de Lima uma moça ter falado comigo, e de ter dito que quando fez o Caminho, nunca pagou um tostao nos albergues espanhóis. Nao lhe pediam nada e ela também nao dava nada...
Achei aquilo tao feio...
Ainda por cima vestia caro, percebia-se que era de familias com dinheiro. Tao feio.

Continuando a falar com os moços do café, disseram-me haver "o Caminho Alternativo" que foi criado aqui há um par de anos. Vai pelo meio dos montes e das florestas. O original atravessa uma zona industrial. Por razoes simbólicas, de querer fazer o Caminho Original, escolho este, mesmo que seja mais feio.

Zona Industrial do Porriño
E era de facto horrível.
Caminho e vejo uma fábrica de transformaçao de reciclagem. havia um cheiro nauseabundo, e mesmo na entrada de serviços desta, a sebe que lhe estava imediatamente em frente estava amarela, ou morta. Caminhei ainda mais depressa.
 Mas caminhando mais, acabei por pensar que ainda que seja horrível para mim, aquele sítio traduzia-se em emprego, em bocas alimentadas. Traduzia-se em pais a poupar para os filhos estudarem, para um dia poderem ter uma vida melhor do que as deles. Traduzia-se em gente que nao tem que abandonar a sua casa para ir trabalhar para fora do seu país.

Fábrica de reciclagem. Reparem na sebe. E depois a sebe à direita, que não dá para os portões.

 É horrível? De repente nao ter tido a oportunidade de pensar nestas coisas e de ter tomado a opçao de ir alegremente alienado pelo verde é que me pareceu horrível. Porque do horrível nasce o belo, também. E o belo em si mesmo, e por si mesmo, só gera o vazio.
Ainda bem que nao o fiz.

Creio que às vezes, o feio dá o belo; e o belo pelo contrário, dá uma alienaçao feita de frio egoísmo. Nao me interessa morrer seco. E aceito todas as consequências da minha opçao. Só porque a Vida é tao especial, que correr em seu paralelo, é o verdadeiro pecado.
Obrigado por este Caminho.
Andei. Continuei.

Olha aquele colchao, debaixo daquele telheiro de casa abandonada. Alguém dorme ali. Aquilo é a casa de Alguém.
Daqui a duas horas, ainda que te doam os pés, estás a dormir quentinho e debaixo de telha, depois de teres comido bem.
De que te queixas tu?
Chego a Porriño e estou estoirado. Vejo um anúncio do Celta de Vigo e da Estrella Galícia. Bom casamento!

 Vou parar um bocadinho e beber uma dessas, porque nao posso mais. Tudo dói. A cada dia há uma nova dôr física, e um maior esplendor que te obriga a pensar e a relativizar tudo.
Entro.

Peço, e logo a seguir, oiço:
" - De onde vens tu?" - um português ao balcao, radicado aqui há 7 anos, entabula conversa comigo. Bom discurso. Inteligente.
- Tu que estudaste?
- Eu? Eu tenho o sexto ano.
- Mas gostas de ler...
- Já li muito.
- Nota-se.
- Sabes que devo muito à Fundaçao Gulbenkian...?
- As bibliotecas itinerantes em carrinhas Citröen, nos anos 80?
- Sim.

Jóia de moço. Nao me permitiu pagar, pagou ele a despesa. Também me disse que já nao tinha luz para chegar a Redondela. E assim fiquei em Porriño. Apresentou-me a um amigo que tinha um albergue privado, por causa daquela história de em Espanha criarem problemas nos albergues públicos, se nao tens o CC original.



Conforto, por uns meros 10€

Nao te queixes. Agradece. Tudo. Até Amanhã.













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