quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Caminho de Santiago - Dia #3 em Novembro de 2016

Caminho Central Português - Dia 3
Ponte de Lima - Rubiães - Ponte de Lima (38 Km.)

O Dia do Milagre



O dia começou às 06:00 em Ponte de Lima, muito receoso em relação à famosa subida da Labruja - Labruja: La Bruja; A Bruxa (?) - a linguística fica para outro dia.

Foram 11 quilómetros practicamente e até ao sopé da serra e depois foi subir. Primeiro para-se no Café Nunes, onde há um simbolo do AC/DC, clube de futebol da zona. Boa cena.
 Da temida subida não reza a história. Não achei nada difícil. Mesmo. Quando era miúdo nos escuteiros subiamos frequentemente a Serra de Sintra e era pior. No ano passado, o Monte Olimpo foi muito, mas muito pior. Não percebi o drama. Dizem que com chuva é que é a desgraça e há mortos e feridos, e vem tudo por aí abaixo às cambalhotas e "aqui d'el rei", mas mesmo assim não me convenceram.

Já quase no cimo há um cruzeiro, onde as pessoas depositam objectos pessoais, fotografias, ou pedaços das bicicletas (o Caminho de Santiago também se faz de BTT). Lembrei-me que ainda em Coimbra na estação dos autocarros achei um carrinho rosa e pensei dá-lo à Maria, não obstante ser um objecto muito pequeno para a idade dela, e por isso ter que o guardar. De qualquer modo, sempre andei com ele no bolso dos calções. Era uma forma da Maria estar sempre comigo. Levei a mão ao bolso instintivamente e resolvi deixá-lo lá. Por várias razões, achei que lá ficava melhor. E lá ficou.

Depois desci a Serra da Labruja e fui para o albergue e Fim.
Fim...?

Isso é que era bom...
 Onde está TODO o meu dinheiro?
Onde está aquela meia, onde guardo o dinheiro?
Mochila virada do avesso 4 vezes e a meia não está.

E agora? Agora são 15:00 e vou ter que voltar TODO O CAMINHO PARA TRÁS ATÉ PONTE DE LIMA, para procurar com atenção em todos os locais onde abri a mochila e troquei de roupa, ou nos cafés onde parei. 19 quilómetros, sobre 19 quilómetros. Isto é para não estares a dizer que a subida da Labruja é fácil. O meu pé dói-me horrivelmente. Não sei como vou fazer isto.



Ando umas dezenas de metros e por mero acaso dou com um bordão de eucalipto encostado a uma rocha, a olhar para mim. Juro que vi uma luz dourada sobre o bordão, e cânticos celestiais.
Um em cada mão para me apoiar. Siga a marcha.

Luz só tive para a parte da serra, onde ainda me perdi uma vez. A verdade é que o Caminho de volta não está tão bem sinalizado. Aprendes a orientar-te olhando para trás nas encruzilhadas e percebendo para que ângulo está pensada a famosa seta amarela que indica o Caminho de Santiago. É seguir no sentido inverso.
Pelo menos enquanto houve luz.

Quando cheguei ao Café Nunes já não havia luz. Faltava atravessar 10 Km. de mato ao longo do Rio Labruja, numa zona onde não há vivalma. Não tinha outro remédio: fui.

Fui de lanterna a falhar, no meio de um breu medonho onde só ouvia quedas de água. Perdi-me algumas três vezes, entrava em quintas privadas sem querer, completamente perdido no bosque, os cães a ladrar por todo o lado... um inferno. Era a guerra! Entre a bandana na cabeça, os cabelos, o impermeável e o barulho da água no meio do mato, aquela palhaçada toda parecia o filme do Rambo!
Não é aquele do Rambo amigo dos talibans, a matarem comunistas todos contentes. É o outro: aquele em que o Rambo espeta três chapadas a um polícia e depois anda fugido no mato. Esse!
Juro que até ouvia partes da banda sonora, quando entram aqueles sopros e rufares marciais, nos momentos de maior tensão!


Do dinheiro nem vê-lo em parte alguma. Lá consegui chegar a Arcozelo, para me ter que embrenhar em mais um troço de negritude; lanterna a dar, lanterna a não dar... chego a Ponte de Lima.

A cerca de 300 m. do albergue, UMA MEIA NO CHÃO??? O coração saltou-me pela boca. É a minha meia! Deixa ver.
Estava lá o dinheiro todo.
Não era pouco dinheiro. Estava lá o dinheiro todo.
Esteve lá o dia todo e ninguém lhe tocou.


Não tenho mais palavras para este dia. Apesar do dia ter terminado a jantar alarvemente e ficar a ver futebol na televisão, e a regressar de táxi, o dia ficou por ali. Tudo o resto me pareceu irrelevante e hoje ainda não acredito.









Nenhum comentário:

Postar um comentário